Você não vem me buscar?


Não…. não tenho câncer, mas estou com os dias contados. Não posso reclamar. Ou era isso ou a rua, onde posso encontrar umas sobras de vez em quando, mas também sou pisoteado, enxotado, passo frio de maio a agosto e morro de calor no resto do ano.

De vez em quando encontro alguém que me dá atenção, ou que no mínimo me deixa em paz, no meu cantinho. Alguém que me deixa ficar na varanda para não tomar chuva e às vezes me joga um pedaço de pão.

Mas tive a sorte de encontrar alguém que me acolhesse e tentasse arrnjar um lugar melhor para mim. Só não tive a sorte de encontrar esse lugar. Amanhã é meu último dia por aqui. Meu tempo se esgotou. De nada adiantaram os olhares de pedinte, abanar o rabo ou fazer gracinhas. Ninguém me quis. Posso não ser tão bonito quanto os cachorros de raça, mas sou mais inteligente e muito mais forte, tenho certeza. E estou cheio de carinho. Um carinho que não pude compartilhar com ninguém, a não ser com meus companheiros de “cela”.

Amanhã é meu último dia por aqui. Preciso dar espaço aos mais jovens que estão para chegar. Amanhã é meu último dia por aqui. Você não vem me buscar?

Cerca de cinco mil animais são abandonados a cada dois anos no Brasil. Além de ser uma grave violação dos direitos dos animais, o abandono gera problemas à saúde pública em grandes centros Urbanos e representa apenas mais uma das atrocidades cometida contra esses animais.

Os casos não se limitam a animais domésticos apenas: leões e tigres são abandonados por circos quando não atendem ás expectativas financeiras dos donos.

Quanto aos animais domésticos, muitos são encaminhados ao Centro de Zoonoses de Animais, onde são sacrificados após um período curto de estadia. Em alguns locais este período pode estender-se a anos, mas devido à urgência de espaço muitos chegam a permanecer apenas 72 horas antes de serem sacrificados.

As justificativas para abandono são várias. Em uma pesquisa realizada em 12 abrigos dos EUA, com 1984 cães, os resultados adquiridos foram os seguintes*:

  • 37,7% abandonam os cães pois alegam que os mesmos sujam muito a casa
  • 12,6% são destrutivos dentro de casa
  • 11,4% afirmam que o animal é destrutivo fora de casa
  • 10,9% são abandonados porque são agressivos com as pessoas
  • 8% não se adaptaram a outros animais
  • 8% costumam morder muito
  • 6,9% requerem muita atenção
  • 6,9% não são amistosos
  • 4,6% eutanásia por motivos de comportamento
  • 4,6% são abandonados por serem ativos demais

 

A Psicóloga Maria Cristina Médici explica que o animal reage da mesma maneira que o ser humano ao ser abandonado.  “Eles possuem naturezas, instintos e interesses biologicamente determinados e são sensíveis à dor e ao sofrimento”, afirma Maria Cristina.

O animal se apega com muita facilidade ao dono e mantém uma relação de lealdade com o mesmo. Guiado por seus instintos, ele acolhe o homem e protege-o quando sente que ele está em perigo. Ele não raciocina se a situação pode ou não ser enfrentada, ele apenas preocupa-se em defender o dono.

O animal custa a entender que está sendo abandonado. Ele espera pacientemente a volta do dono, e só depois de muito tempo, começa a se conformar com a situação.

A dona de casa Tânia Fornazari já adotou quatro cães e dois gatos. Dick, um cocker que seria abandonado pelo amigo do filho, Tati, uma vira-latas que foi machucada por pedreiros durante a madrugada, Lilica, uma basset que havia acabado de dar à luz a cinco filhotes e foi abandonada, junto aos filhotes, numa praça  e Preto, um vira-latas que era espancado regularmente por freqüentadores da praça, inclusive crianças.

Tânia já presenciou muitos outros casos de abandono e incentivou colegas e conhecidos a adotarem cães e gatos.

Auxiliada por veterinários, Tânia retirou animais da rua e encaminhou-os aos pets shops. Contudo, vivenciou momentos de triagem, ou seja, algumas pessoas procuravam estes animais nos pet shops e simulavam uma adoção, mas traziam-nos de volta para as ruas e os maltratavam mais do que já haviam sido maltratados anteriormente.

Segundo Tânia, seria necessário fazer um cadastro dos cães que são adotados para que os veterinários pudessem acompanhar o processo de pós-adoção dos cães e certificarem-se de que realmente encontraram um bom lugar para viverem. Tânia nunca procurou ajuda na Prefeitura de Ribeirão Preto, mas afirma que uma das grandes dificuldades que encontra é a demora no rodízio de castração de animais – quanto mais eles demoram em castrar os animais, mais filhotes irão nascendo ao longo do ano, e o número de cães abandonados só tende a crescer.

A jovem Paula trabalha no canil Murilo Pretinho e acompanha o sofrimento desses animais de perto. Ela afirma que muitos donos se desfazem dos cães como se fossem objetos, simplesmente por precisarem de carinho e atenção. Acrescenta que o caso mais triste de abandono que já vivenciou foi de dois cães de porte grande, quase mortos de fome e abandonados na rua.

Paula indica as feiras da Avenida Presidente Vargas para aquelas pessoas que queiram adotar um animal, mas ressalta que para manter um animal dentro de casa é preciso, acima de tudo, muito amor.

Já a professora de português, Iara Santiago, pratica a adoção de animais há doze anos. Quarenta animais foram salvos por suas mãos desde que começou e até hoje, e atualmente, ela ajuda Patrícia, a jovem fundadora da ONG LAR (Lugar de Animal de Rua).

Iara afirma: “É uma coisa da alma. Eu não meço esforços para ajudar esses animais. Vendo pizza, incentivo a doação e quando vejo um animal na rua eu ajudo. É uma coisa da alma”.

A professora conta com a ajuda de veterinários que reduzem custos de tratamento para estes animais resgatados.

 Você não veio me buscar. Agora vou contar os minutos finais. Os últimos passos de um cão. Vou tentar me lembrar das coisas boas desta minha curta vida. Não se sinta mal por mim. Eu já imaginei que esse seria o meu desfecho. Afinal de contas, que destino um vira-latas pode ter nesta vida?

Às vezes penso que morrer de câncer seria mais digno do que de abandono. Mas sinto falta de alguém para afagar minha cabeça, me jogar um osso ou assoviar para mim. Ah, se alguém assoviasse para mim… eu iria correndo!

Mas ninguém nunca mais assoviou. E agora o único som que escuto é o dos passos daquele que me leva para o sossego. Por mim eu preferia brincar por muito tempo.

Esconde-esconde vai ser minha última brincadeira. Acho que em alguns segundos vou poder me lembrar das coisas boas da vida. Mas acho que não é tempo suficiente para lembrar das coisas ruins. Será que dá tempo? Três, dois, um….

 Luísa Morato

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