Um clips, um elástico e eu


Cores. Amarelo, azul, verde, rosa, roxo… É tudo o que eu vejo do lugar onde eu repouso até a próxima tarefa, até o próximo livro de desenhos em branco. Minha vida é realmente maravilhosa. Tenho o dom de dar cor a uma folha de papel sem graça. Graças a mim e aos meus irmãos, o mundo é um lugar mais bonito e cheio de vida.

Passo o dia em mãos delicadas e pequenas. Vou riscando de lá pra cá, de cá pra lá. A cada movimento, fica mais fácil perceber o tom de vermelho que imprimo na folha em branco. À noite, recolho-me numa pequena, mas confortável lata, junto com os outros lápis de cor. De lá, consigo ver todo o quarto da minha dona. A parede é rosa, muitos brinquedos espalhados pelo chão e um cheiro de doce devorado escondido antes do jantar. Na parede atrás da cama há um quadro com muitos desenhos que eu ajudei a colorir. Eu já sei de cor os contornos de bocas, corações, camisetas, chamas e até de cadeiras. Como é bom ver meu trabalho reconhecido!

Desde que eu comecei a morar aqui, minha vida teve essa rotina. Rotina que eu adoro, por sinal. Porém, de uns dias para cá, venho me sentindo estranho. Da minha lata, já não consigo enxergar o quarto inteiro. A mão pequenina, a cada dia me parece maior.

Os meus irmãos estão cada um de um tamanho diferente. Todos diminuindo… Acho que o único que se salva é o Bege! Está alto como sempre, já eu… Bem que a Rosa me disse que eu estava trabalhando demais! Mas eu não consigo evitar, essa é minha paixão!

De repente acordo e está tudo preto. Não sei como eu vim parar aqui… Devo ter caído enquanto dormia. Agora tudo que eu vejo é o fundo da lata.

Um dia… Dois dias… Uma semana. Faz muito tempo que estou aqui e ninguém veio me resgatar. Às vezes, quando os outros estão trabalhando, consigo enxergar uma luz vindo de cima e se tenho sorte, vejo também a cortina se mexendo com o vento. Certa vez, minha dona chegou bem perto da lata, deu até uma olhada pra dentro e eu me enchi de esperanças! Mas não era eu quem ela estava procurando… Foi a velha borracha que se salvou.

Aqui no fundo da lata, tenho tido muito tempo para pensar. Lembro das viagens que eu fiz, dos desenhos tremidos feitos com o carro em movimento. Da mão suja de terra ansiosa para colorir alguma coisa.

Eu devia ter visto os sinais. Há algum tempo minha cor estava mais pálida. Fiquei velho e me aposentaram. Agora não passo de um lápis vermelho gasto e esquecido no fundo de uma lata. Eu, um clips e um elástico arrebentado. Posso ficar aqui por anos e anos até alguém, sem querer, me alcançar.

Ah, que saudade sinto de passar o dia inteiro ocupado, dando vida e cor para bocas, chamas e corações. Já devem ter me substituído. Nenhum desenho fica completo sem um toque de vermelho. Agora, só me resta ficar aqui… Esperando outro lápis para me fazer companhia. Acho que o Verde é o próximo.

Por Mariana Pacheco

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